segunda-feira, 18 de junho de 2012

Urgência

Lá fora chove. Como lágrimas de Deus. Só se vê água caindo do céu, e eu podia sentir. Quase que um gosto amargo no céu na boca. Um embrulho no estômago. Era um sentimento palpável. Eu iria morrer. Agora as lágrimas eram minhas. Era só aquele pressentimento maldito. Como se tudo fosse acabar, ou acabou e eu não percebi. Perdi os sentidos por uns instantes, como se o chão tivesse desaparecido.
  - Você está se sentindo bem, senhorita? - O atendente da cafeteira veio ao meu encontro, me segurando como se eu fosse uma boneca frágil. Frágil demais pra se suportar. O olhei assustada. Havia uma certa preocupação em seus olhos quase que vã. De repente, só o que me restava era sorrir. Eu sorri e agradeci a preocupação. Me ajeitei, paguei o que devia ser pago, até um gorjeta deixei. Sorri insegura novamente para o homem que se preocupou em vão. Enfrentei a fúria dos ventos, a dor da chuva, enfrentei pessoas apressadas correndo contra a chuva enquanto eu queria abraçar aquele caos. Pessoas fugindo da chuva enquanto eu fugia para ela.Aquilo era patético, eu não iria morrer, eu só precisava respirar novamente. Só precisava de algo que parasse meu coração, mesmo que fosse pela última vez. Mesmo que por alguns instantes, queria de fato, viver. É isso. Simples como a chuva que caia. Mesmo que inconsciente, eu já sabia aonde iria parar. Sabia exatamente o que fazer. O meu viver morava até que perto dali. Agora o choro já era um sorriso disfarçado, agora meus passos lentos já se tornara uma corrida rápida. Estava encharcada até os ossos, com a respiração falha, toda trêmula. Poderia facilmente dizer que não estava adequada para o que ia fazer, mas e daí. Aquela porta vermelha já me revirara o estômago mas já estava rindo boba.
Apartamento 330. Apertei o botão ainda trêmula mas não mais de frio. Com a chuva ainda forte mal se ouvia meus pensamentos mas eu ouvi. Sua voz rouca, a sua voz saindo daquele interfone velho perguntando quem era.
- Só desce aqui, vai. - Falei urgente com a boca grudada no interfone, torcendo pra que reconhecesse minha voz.
- Lucy? É você? - Agora havia um tom de curiosidade, pressa, qualquer coisa na sua voz que me fez sorrir novamente.
- Desce, anda, não dá pra subir, eu tenho pressa, só.. só vem. - Ouvi ele desligando o interfone. Os segundos pareciam eternos, ou mais do que isso. Bufando e até xingando, espremida no pequeno hall da porta vermelha, lá estava eu, tentando achar algo que me tirasse da rotina, pra variar. A porta se abriu e eu mal conseguia respirar. Ao vê-lo com a cara amassada de domingo a tarde, com um moletom qualquer e aquela camiseta que  sempre o achei lindo nela. - Eu não sei o que deu em mim, mas tô aqui. Me deu uma puta saudade sua, e de repente eu sabia que o vazio que eu sentia, você poderia facilmente o preenche-lo. Esquece o passado, esquece tudo, só se concentra no agora e me diz que pode quebrar esse galho pra mim, me diz que pode simplesmente me tirar o folego antes que eu tenh..- Antes de terminar qualquer frase, ele me puxou pra si, colando nossas bocas, afinal, era isso que eu queria. Não era? Era. Era seus braços fortes, sua boca firme, seu coração colado ao meu. Talvez eu precisasse de mais, mas por enquanto era o bastante.

2 bolhas estouradas:

Elania disse...

Oh God, eu pensei tragicamente, que ele iria dá um ponta pé nela e me surpreendi... Acho que já faz algum tempo que vejo algo que "acaba bem", sabe.
Gostei muito, *-*

Anônimo disse...

geovanna vc ta precisando.
clara

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