quarta-feira, 20 de outubro de 2010

The bookstore (Parte 1)

Por mais que eu amasse a livraria em que eu trabalho aquele lugar poderia ser... entediante. Claro que eu amo ler, mas quando todos os livros em sua frente foram tocados pelos seus dedos, a coisa toda perde a graça. Depois que você nota as paredes descascadas e o abajur quebrado, aquela livraria fantástica se tornou um simples trabalho. 
- Jorge vá ao depósito e pegue aqueles livros que chegaram hoje de manhã, ok? - Marta me pediu com aquela sua voz irritante que lhe dá um ar de doente. Subi as escadas encontrando várias caixas empilhadas, me dando de repente uma preguiça vertiginosa. O sininho toca e surge uma garotinha com seus seis anos de idade acompanhada por uma garota com uns adoráveis dezesseis anos. 
- Molly, Molly, eu quero esse livro azul! - A pequena criança pulava freneticamente e queria tocar em todos os livros que via.
- Quieta Charlie, senão você não vem  comigo na próxima vez. - Molly a repreendeu fazendo-a parar.
- Charlie fique quieta para que eu possa te dar um livro azul. - Interferi deixando os olhos da curiosa Charlie e da desconfiada Molly atentos a mim. Desci o resto  da escada, coloquei a pilha de caixas em um canto qualquer ainda sentindo os olhares em mim - Marta poderia por favor pegar aquele livro " Os contos de Beedle, o Bardo " na seção infantil está bem? Eu atendo as duas moças. E você... Molly? O que deseja?
- Algo que me tire o tédio. Tem algo assim pra mim? - Brincalhona, Molly me perguntou enquanto eu me entretia com seus cabelos desgrenhados e as suas unhas sujas de um esmalte ruído.  Molly, a representação de jovens descalços nas ruas frias de Londres, bêbados na noite escura e filhos obedientes de pais surdos que não escutam quando a porta é fechada com cuidado as três da manhã. Sei porque já fui assim. Tão travesso quanto podia ser.
- Bom, posso lhe dizer que não há livro nenhum com esse titulo, até porque já li quase todos dessa livraria mas há um livro que poderá se interessar... que tal "O Baile das Lobas"?
- Algo menos selvagem, que tal? - Minha gargalhada estranha se escapou antes que eu notasse que estava rindo da pobre Molly. Suas bochechas enrubesceram e de repente seu sorriso era tímido, quase não existia. Dei as costas pra ela e busquei um livro que certamente ela adoraria. 
- "Eu sou o mensageiro." Eu o adorei, eu li em uma madrugada. - Uma sobrancelha arqueada e dedos tamborilando o vidro embaçado da bancada velha. - Darling, eu já li mais livros antes mesmo de você saber juntas as sílabas. Leve, e volte aqui semana que vem para buscar outra recomendação. - Ela tinha sacado a minha, pegou o livro da minha mão com um sorriso malicioso e deu o veredicto:
- Daqui á dois dias estarei aqui. - Sorrimos bobos como se nada tivesse mais graça que uma aposta como aquela. Mas aonde estaria Charlie, a pequena versão de uma Molly inocente? Fujira entre os livros empoleirados e nunca cheirados. - Char? Corre aqui. Estamos quase indo.
- E meu livro azul? - Charlie perguntou ansiosa. 
- Aqui mocinha - Marta finalmente chegou entregando o livro para a menina.
- Quanto deu? - Molly interveio já pegando a carteira e arrancando algumas notas
- £27,50 e até daqui dois dias. - Sorri atrevido enquanto embalava os dois livros.
- Não se assuste se eu aparecer aqui antes disso... ?
- Jorge. 
- Jorge foi um prazer. Vamos Charlie eu tenho um livro pra devorar - Uma piscadela e sete passos a porta. Mal posso esperar. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Titulo improvisado para uma pequena homenagem á quem nunca lerá.

Você é poesia pura, é a melodia improvisada, a arte solta. Você é a elegância de descer do salto, a inocência disfarçada, um escândalo de classe.  Você é simplesmente, Audrey.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Palavras simples de uma vida simples.

"Rachel Adams. Como posso descreve-la? Garota de estatura mediana, morena e de grandes olhos atentos. Apenas isso. Tão simples quanto poderia ser. Está nisso a dificuldade em falar sobre ela. Porque existem pessoas tão simples que não há palavras o suficiente para dizer algo. Mas posso tentar, é pra isso que estou aqui.
Nunca alegre demais, ou viva o suficiente pra ser espontânea. Seus sonhos foram arrancados quando ainda mal chegavam a ser um. Um pai severo pode causar sérios danos em uma menina como Rachel. Pobre menina, só queria agradar o rancoroso pai. Sua mãe morreu cedo demais. Então era só ela e ele. Um relacionamento que mal existiu. Quem poderia salvar Rachel de seu pai? Ninguém. Desculpe, mas não é sobre isso que quero falar, mesmo que isso seja fundamental para essa história continuar, seu pai era um detalhe. O grande detalhe, mas ainda sim... um detalhe. 
Rachel cresceu, seguiu uma carreira medíocre- novamente levada pela opinião ignorante de seu pai - sem uma vida social, sem ninguém pra amar. No seu trabalho, era sempre o motivo de fofocas. O que ela fazia? Nada. Ninguém a conhecia. E todos se matavam por isso. Porque queriam descobrir o que se passava pela Rachel, a garota muda de olhos atentos. Tantas perguntas eram feitas: "Será que já amou alguém? Aonde mora? Será que vai a casa de seus pais aos domingos? Tem algum namorado? Acredita em Deus? Uma tatuagem escondida? Algum seriado favorito?'' E não acabavam mais, e ela a pobre Rachel seguia infeliz trabalhando, ignorante do que diziam sem nada a dizer.
Nunca se arriscou e por isso pouco sentiu. O sabor de viver nunca chegou em sua língua e os sonhos enterrados nunca foram ressuscitados e seu apartamento, vazio na maior parte do tempo nunca pintado. O mesmo apartamento branco de três anos atrás, cansado pela falta de atenção da hóspede que também não cuidava de si mesma. Medíocre vida. Como seria as coisas em seu fim? Quem choraria pela sua morte prematura? Seu pai, talvez. E Izzy quando soubesse anos depois. Sua unica amiga do colegial que fugira com o namorado deixando sua pobre Rachel que ficou pra trás. Ah, havia também o Alvin, seu gato solitário. Ninguém mais? Não. Porque Rachel era vazia e branca como seu apartamento. Sem nada há acrescentar,  sem nada há desejar.
Decadente sem nenhum glamuor. Morta antes de viver. Foi tarde querida Rachel."


Minha garganta latejava e  meu corpo pregado nos lençóis ensopados do meu próprio suor reclamava do sono mal dormido. Acordei aos berros com lágrimas saltando dos olhos. O pior sonho. Era minha vida passada diante de mim em palavras terríveis. Como pude ser tão medíocre, e indiferente a minha própria vida? As lágrimas ainda saem sem controle algum e os soluços vem violentos. Merda. Desperdicei tempo demais. Preciso agir. Preciso ainda viver. Eu preciso... 

Rachel pulou da cama e correu pro banheiro. Desesperada como se seus segundos estivessem contados se arrumou da maneira mais desleixada possível e saiu correndo em direção a porta. Ainda era cedo. Poderia ser muito bem seis da manhã mas ela não se importava.
Dirigiu como uma louca, não se importando com as buzinas de reclamação ou com as palavras de baixo calão dirigidas á ela. Entrou na primeira loja de conveniência aberta que encontrou. Saiu de lá em vinte minutos um pouco mais calma mas ainda com a idéia fixa na cabeça. Faria o que pudesse pra colocar seu plano em prática. Ligou pro escritório. "Não poderia ir hoje e não era da conta de ninguém o motivo da sua falta" Desligou na cara de quem quer que seja. Seguiu com um sincero sorriso na boca como poucas vezes fez na vida. Abriu seu apartamento com o coração frenético e o viu como sempre deveria ter visto mas nunca o fez. 
Ele realmente era vazio e sem cor. Como pode morar em lugar daquele por tanto tempo? Não achou resposta. Foda-se aquele apartamento não existiria mais, como a sua hóspede.
Então Rachel começou. Afastou todos os móveis, teve a preocupação de protege-los com cuidado. Enfim, estava lá todas as paredes nuas para Rachel sacanea-las como quisesse. E o fez. Pintou cada parede com a cor que bem achou. Uma overdose de cores extravagantes e que por um acaso sincronizadas de uma maneira perfeita. E em cada parede pintada morria um pouco da velha Rachel. Morria cada ressentimento com seu pai, morria cada chance perdida, morria toda aquela indiferença, morria tudo. E renascia uma garota nova, que seria feliz. Que se daria uma chance pra viver e reclamar um bocadinho de vez em quando e que cortaria o cabelo sempre que pudesse.Renascia uma mulher que acharia alguém pra amar e que seguiria finalmente seus sonhos. Renascia Rachel Adams. 


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